Prólogo
Meus pensamentos muitas vezes eram egoístas, só pensava em mim mesma, mas vejo que isso não valia a pena, quem sabe deve ser por isso que eu sofri tanto. Perdi muitas coisas com isso, muitas pessoas já me deixaram, e muitas ainda me deixarão, se eu não mudar minhas atitudes e modo de viver. Não posso mais conviver com isso, não posso mais conviver comigo mesma, preciso de uma solução neste instante, mas qual será ou que caminho que de devo seguir?
Cansei, não sei se devo continuar, será? Perguntas. Respostas. Uma completa a outra, porém, na reta final, em um túnel chamado Vida, elas se desencontram, e assim causam um grande acidente. Acho que não me apresentei; meu nome é Sophia, tenho 15 anos, estou no 1º ano do ensino médio, alias, ouço uma sirene, mas; será que é do sinal da escola, ou de uma ambulância?
A nossa nova casa não é como nos filmes de Hollywood - espaçosa, com decoração impecável-, é modesta, aconchegante, e perfeita para uma família de três pessoas, três quartos, sala, cozinha, banheiro, garagem, quintal da frente com um lindo jardim e quintal dos fundos com uma piscina perfeita. Moramos em um bairro bom – ao menos foi o que o corretor de imóveis da imobiliária nos falou-, aparentemente meus vizinhos parecem não ser muito chegados a uma festinha de final de semana – pena, porque eu sou-, mas percebo que as mulheres do bairro, aparentam ser do tipo de vizinhas dos filmes de Hollywood - intrometias-, mas acho que posso lidar com isso; é o que eu espero.
É sexta-feira, nosso primeiro dia na cidade, nem arrumamos a mudança na casa, afinal, após horas em um avião, qualquer pessoa cansa, fomos jantar fora, o que comemos? Ah sim! Um típico jantar de americanos – fest food-, papai comeu demais – como sempre-, mas mesmo assim não fez tirar o animo de minha mãe em conhecer a cidade. Caminhamos bastantes, acho que isso fez com que meu pai melhorasse; a cada passo que dava, pensava no que meus amigos estariam fazendo no Brasil, mas a paisagem da praia à noite me distraia.
A cidade não é como eu imaginava, é muito melhor do que o esperado por mim e meus pais, é perfeitamente linda, a brisa do mar bate em meu rosto, e no alto de uma rocha próximo ao mar, estou sentada vendo meus pais se divertirem, se jogando areia e correndo um do outro, como duas crianças, há anos que não os via assim. Um vento mais forte sopra – sinto um arrepio por todo o corpo-, logo abro meus braços, e com a brisa marítima, sinto a sensação de nostalgia, não digo que gostaria de voltar ao Brasil, mas gostaria de trazer meus amigos para junto de mim neste momento maravilhoso.
- Esta ficando tarde! – Ouço minha mãe gritar, olho no relógio, já são 09h30min PM. Fomos para casa, enquanto eu tomava banho e me ajeitava para dormir, minha mãe arrumou três colchonetes na sala, nos próximos dois dias seguintes, descanso era o que não teríamos tão cedo, afinal, os móveis não iam para os seus devidos lugares sozinhos, e assim iniciou-se um novo começo, espero que de tudo certo daqui pra frente.
O dia esta claro, é uma linda manha de sábado, acordei com réstias de sol batendo em meu rosto, são exatamente 10h e 15 min AM, mamãe já estava de pé, e já tinha ido a padaria comprar o café da manha, afinal com a cozinha desmontada, seria assim o resto do final de semana. Troco-me e vou lá fora olhar o lindo dia, meu primeiro dia como a mais nova cidadã estrangeira naturalizada americana, ainda esta difícil de cair a ficha, de que não moro mais no Brasil, e que se eu pronunciar qualquer palavra em português em publico, dirão que sou louca, mas logo me acostumarei com a nova rotina.
Meus novos vizinhos são simpáticos, no que abri a porta e fui para o gramado, o vizinho da casa ao lado estava indo buscar o jornal na caixa de correios, assim como todo americano faz – notei que estava comparando a vida dos americanos verdadeira com a vida deles que mostram nos filmes -, e me abanou, fui gentil e retribui - só dei uma erguidinha com a mão e um leve sorriso, sabe como é a vergonha veio junto comigo do Brasil-, logo entrei, estava com fome e mamãe já estava chamando. Degustei panquecas com calda de chocolate, bem ao modo americano - definitivamente estava fazendo comparações com os filmes-. Minha mãe e meu pai não deram muita folga, logo começamos a arrumar as coisas, a casa não era muito grande então conseguimos arrumar tudo no mesmo dia, no domingo só limparíamos o que fosse necessário, e neste dia começaria a minha terapia mental, afinal segunda-feira seria o meu primeiro dia de aula, estou nervosa.
Estou cansada, e pela primeira vez vou dormir no meu novo quarto, ele é igual à foto do catálogo da internet quando meus pais compraram a casa, simples, mas eu gostei, não era muito grande e nem muito pequeno, na medida certa, como eu queria, a pintura ajudou muito a destacar meus pôsteres das minhas bandas favoritas – paredes brancas facilitam a vida de roqueiros-, minha cama ficou debaixo da janela, era o lugar por onde se entrava mais ar fresco – morar em uma cidade beira-mar também tem seus contras-, mamãe e papai ficaram no quarto em frente ao meu, o quarto ao lado era para hospedes – mas por enquanto estava cheio de bagunças, acho que levaria dias ainda para mamãe arrumar tudo-, a nossa sala não é muito grande, mas a cozinha compensa a falta de espaço.
É um pouco cedo para eu ir dormir, são 07h e 30 min PM; se meu computador já estivesse instalado, iria correndo conversar com meus amigos; sinto muita falta deles, lembro muito da minha vida no Brasil, lembro de minha família, da minha ex-escola, da minha casa. Ainda lembro de todo o tempo que ficamos nos preparando para nos mudar, com as aulas particulares de inglês, a preparação psicológica que minha mãe tentou faz em mim, dizendo que por mais longe que estivéssemos de nossos familiares e amigos, eu poderia falar com eles todos os dias pelo MSN, e que todas as férias eu viria para o Brasil – até hoje não sei o porquê minha mãe achou que eu sentiria falta de meus parentes, ela sabe que eu nunca me dei muito bem com eles-.
- Venha assistir TV comigo Sophia! – gritou minha mãe, acho que até os vizinhos escutaram – aprendi a falar alto demais com ela-, mas ao menos a televisão estava funcionando – porque graças a minha comunicação, meu pai lembrou de pedir para o corretor já deixar instalado a TV a cabo-, estávamos assistindo um filme, eu diria que era bom, mas na metade do filme resolvi ir dormir, por enquanto meu quarto estava arrumado, por enquanto, não sei até quando posso me segurar e deixar coisas nos seus devidos lugares, amanha é um novo dia, onde meu pânico começará, resta apenas mais 24h até as pessoas começarem a ridicularizar com o meu sotaque ou algo do tipo – eu tava começando a ter medo de minhas comparações com os filmes, definitivamente tinha que parar com isso-.
Está um dia bonito lá fora; hoje é domingo, meu terceiro dia na cidade. Mal acordei e o pânico já começou a me perseguir, e minha mãe também. - Bom dia filha! Animada para a aula amanha?-com um sorriso de orelha a orelha ela me recebeu hoje pela manha, com aqueles lindos olhos que eu tive o prazer de herdar-. Sou muito parecida com minha mãe, cabelos castanhos escuros, olhos azuis bem claros como o mar do Caribe, meu sorriso é igual ao do meu pai, grande, simpático e modesto posso complementar - meu pai ainda completaria, diria que é conquistador e que tem charme, mas sou discreta-. Limpamos a casa a manha inteira, eu e meu pai, enquanto minha mãe preparava o almoço, infelizmente terminamos de limpar tudo rápido após o almoço, afinal três pessoas limpando uma casa não muito grande, o serviço rende; meu pai resolveu conhecer o centro da cidade – para o meu agrado a cidade obtinha mais locais turísticos que a minha cidade natal-, vimos muitas lojas, minha mãe comprou algumas roupas – se ela não tivesse comprado alguma coisa eu diria que ela estava doente ou algo do tipo-, e fomos jogar boliche.
Para a minha infelicidade o dia passou rápido, e isso aumentou o meu nervosismo, além de ter que acordar cedo no dia seguinte, teria que enfrentar um mundo totalmente novo; se o vendedor da loja já estava se segurando para não rir do sotaque de minha mãe, imagine como seria o meu primeiro dia em uma escola nova cheio de adolescentes ricos, lindos, atletas e modelos de capa de revista?
Eu precisava dormir, mas parece que quando eu mais preciso o sono nunca vem aposto que amanha estarei quase dormindo em alguma aula, ou no refeitório na hora do almoço; o nervosismo me faz pensar, sendo que eu tenho que relaxar e descansar para o dia seguinte, ta difícil eu confesso. Eu nunca rezo antes de dormir, mas nesse momento sinto a necessidade que um apelo para alguém mais poderoso, fecho os meus olhos, e só penso; penso nas coisas boas e nas coisas ruins, agradeço e peço proteção para o dia seguinte, não sei se orei corretamente, mas na hora do desespero nós aprendemos, sinto que tudo mudou, e começa aqui; um novo começo.
O tão esperado dia
Não consegui dormir muito esta noite, o nervosismo não me deixou, e os poucos cochilos que consegui tirar, todos tinham pesadelos, todos eram relacionados com o meu primeiro dia de aula. Logo que percebi que o céu não estava mais escuro, resolvi levantar, ainda era cedo, mas eu não iria conseguir dormir mais mesmo; tomei um banho muito demorado - acho que a conta de água virá meio alta esse mês-, escolhi minha roupa com calma, jogava a roupa em cima da cama via com qual blusa aquela calça fica mais legal, troquei de roupa uma três vezes até decidir – acabei usando o de sempre, calça preta, all star e uma blusinha do AC/DC -, quando cheguei à cozinha, minha mãe tinha feito um café da manha gorduroso, ovos mexidos, bacon e panquecas – ta ai algo do qual jamais me acostumarei com o jeito americano, café da manha gorduroso-.
- Bom dia filha! Espero que esteja com fome?!
- Oi mãe, não estou com muita fome, vou comer só um sanduíche e um copo de suco.
Logo chegou o ônibus, e a aflição parece que estava vindo de carona com ele, o nervosismo aumentou, acho que o café da manha não caiu muito bem. Dei tchau para a minha mãe, peguei minha mochila e fui; a cada passo que dava, o coração batia cada vez mais rápido, a adrenalina era tão grande, que comecei a soar frio; quando entrei no ônibus, pude sentir olhares me mutilando – sensação horrível eu confesso-, tive sorte até, tinham dois bancos vagos quase lá no fundo, senti alivio por não precisar me sentar ao lado de um desconhecido, peguei meus fones, liguei minhas musicas, e assim segui por 10 minutos, até o ônibus começar a encher, e a galera que provável mente sentava lá no fundo, começou a embarcar, sendo assim comeram a perceber a mais nova estranha da escola, os primeiros passavam e só olhavam de cantinho de olho, e assim se foram mais 10 min até chegarmos à escola.A escola era grande – acho que vou me perder aqui-, tinham muitos grupos de alunos no pátio – bem como nos filmes, a turma de atletas, das lideres de torcida, do clube do xadrez, e assim por diante-. No momento em que desci do ônibus, caminhei até a calçada e minhas pernas involuntariamente pararam, fiquei parecendo uma estatua de uma idiota lá parada na calçada olhando para a escola; levou uns 10 segundos para que eu conseguisse me controlar novamente, caminhei devagar, pois não queria tropeçar em meus próprios pés na frente de todos é claro, quando passei pela porta de entrada pude ver um homem alto de terno preto, deve ser o Sr. Carter – diretor-, fui até ele, afinal precisava lhe pedir o mapa da escola, meus livros e meus horários novos; mas pelo visto ele já adivinhara que eu era a nova aluna, e veio até min, isso facilitou e muito minha vida, porém, ele também tinha o mau costume de falar um pouco alto, fiquei com vergonha quando ele me deu bom dia.
- Bom dia, você deve ser a Srta. Oliveira, certo?
- Certo; bom dia para o senhor também.
- Bem, venha comigo até minha sala para que possa pegar seus novos pertences.
Enquanto caminhava em direção a sala do Sr. Carter, pude notar novamente os olhares mutiladores em minha direção - confesso que agora estava começando a sentir medo-, mas procurei não notar muito, antes que eu prestasse atenção em alguém e acabasse tropeçando. Enfim chegamos a sala do Sr. Carter – mais um minuto sobre aqueles olhares intimidadores era bem capaz de eu virar as costas e sair correndo feito louca-, peguei meu novo horário, o mapa da escola e uma folha para que os professores pudessem assinar, o Sr. Carter pediu para que eu fosse até a biblioteca pedir meus livros, nem precisei usar o mapa, era apenas a algumas salas a frente – passei pela biblioteca no trajeto até a sala da direção-.A biblioteca era bem espaçosa, aparentemente muito bem equipada, fui até o balcão – e todos continuavam me olhando-, a bibliotecária era uma senhora simpática, dei-lhe a folha com os meus horários, e ela pediu que eu aguardasse enquanto ela procurava os livros, sentei-me em uma das cadeiras que tinha ao lado do balcão, notei que um menino – muito bonito por sinal - foi conversar com a Sra. Smith, ela olhou para mim num ato de impulso quando o menino comentou algo – provavelmente fiquei vermelha-, esperei por mais uns minutos e a bibliotecária me trouxe os livros, eram um pouco grande a pilha, quando eu olhei, parei e respirei por uns segundos – tava mesmo era criando coragem para chegar com todos esses livros até o meu armário, do qual nem sabia onde era ainda-, consegui colocar dois livros dentro da mochila – ela era pequena e já tinha meus cadernos e meu estojo então dificultou o trabalho-, quando estava arrumando os outros livros para levar na mão, o menino que estava conversando com a Sra. Smith, chegou do meu lado:
- Acho que você precisa de uma ajuda não é mesmo?- Disse ele, com um tom de deboche, ele tinha um rosto simpático e um sorriso agradável.
- Bem; acho que sim. - Disse com uma risadinha fraca e com um tom de ironia.
- Meu nome é James, mas pode me chamar de Jimmy; você deve ser Sophia não é mesmo?- Me assustei quando ele disse o meu nome, mas logo lembrei da sua conversa com a Sra. Smith.
- Sim, mas pode me chamar de Sophi.
- Qual o numero do seu armário?
- 330.
- Sabe onde é?
- Não faço a mínima idéia. - Dei a risadinha fraca com o tom de ironia. Ele me acompanhou até meu armário – e carregando meus livros-, ele não perdia o fôlego, me perguntou muitas coisas, quantos anos eu tinha, de onde eu vim, essas coisas. Ele era muito simpático, e tinha um certo charme – olhos verdes, mais ou menos 1,80 de altura e cabelos num tom de louro médio-. Quando chegamos ao meu armário - após uma lenta caminhada do primeiro piso até o terceiro-, peguei a senha abri o cadeado, coloquei meus livros e ele me acompanhou até minha primeira aula, que felizmente era no terceiro piso
– se eu precisasse descer mais algum lance de escadas; morreria-.
Graças a Deus, eu não demorei muito para achar as outras próximas salas, e também achei fácil o refeitório, quando estava indo para o meu armário, Jimmy já estava lá.
- Olá mais uma vez. - Disse simpaticamente.
- Olá, não se perdeu mais durante o resto da manha?- pude notar a ironia em seu tom de voz.
- Felizmente não, mas confesso que obtive algumas ajudas das poucas pessoas que foram com a minha cara, e de algumas professoras é claro!
-Respondi sorrindo.
- Então para comemorar, lhe convido para sentar-se comigo e com meus amigos, topa?- Senti um tom de desafio no convite, olhei para o armário e olhei para ele novamente:
- Bem, acho que seria uma boa, aceito seu convite, se seus amigos e amigas não se importarem é claro!-Vá que logo de inicio alguém não me goste muito, ou me ache intrometida.
- Na verdade eu comentei com eles sobre a nova aluna, e eles ficaram com curiosidade de conhecer a mais nova sensação da escola, afinal, você é a primeira brasileira que vem estudar aqui!- Ele disse com alegria estampado no rosto, gostei por um lado, mas fiquei com um pé atrás, afinal, por que os amigos dele gostariam de me conhecer? Resolvi desencanar disso, esqueci as bobagens que estava pensando, e segui para o refeitório, entrei na fila para pegar algo para comer, apesar de não estar com muita fome – o nervosismo ainda consumia meu apetite-, e fui me sentar à mesa com os amigos de Jimmy.
Fui bem recebida, Jimmy fez questão de me apresentar a todos, um por um, não eram muitos - felizmente, não sei se agüentaria conhecer muita gente de uma só vez-. Na mesa estavam sentados apenas mais quatro pessoas além de mim e meu mais novo amigo, eram duas meninas e dois meninos - uma das meninas eu vi no ônibus, quando estava indo para a aula-, Krista Johnson, Jay Williams, Oliver Jones e Jackson Brown. Realmente estavam muito animados em me conhecer - senti vergonha de mim mesma ao duvidar do Jimmy antes-, Jay se lembrou também de ter me visto no ônibus de manha, e comentou isso na nossa rodinha na mesa; fizeram-me varias perguntas, as mesmas que o Jimmy me fizera antes, onde eu morava, por que a mudança pra a cidade, se eu estava gostando, quantos anos eu tinha, o mesmo roteiro.
Estava gostando dos meus primeiros amigos que eu fizera no meu primeiro dia de aula, Krista comentou como é engraçado me ouvir falar - Oliver a cutucou por baixo da mesa, pude perceber-, dei risada também, e comentei que também achava engraçado americanos falando português, Jack me fez muitas perguntas sobre como falava algumas palavras em português, e quando ele repetia as palavras, eu não me continha; e entrava na brincadeira junto, Jay me deu um apoio, disse que em pouco tempo pegaria o jeito de falar o inglês sem o sotaque, e brinquei que eles deveriam ouvir minha mãe falando, eles deram muitas risadas, confesso que isso me serviu como um empurrãozinho repleto de animo para continuar até a saída, estava ansiosa para ir para casa contar para minha mãe sobre o meu primeiro dia de aula.
Na volta para casa Jay se sentou ao meu lado no ônibus, estava feliz por não ter sido o centro das atenções hoje e estava feliz por ter conhecido pessoas que foram legais comigo durante todo o dia, e estava mais feliz ainda porque hoje minha internet já estava funcionando e meu computador instalado, poderia falar com meus amigos no Brasil, estava com muitas saudades deles, eu queria contar tudo, como é a cidade, como foi bom o meu primeiro dia de aula, espero que amanhã seja melhor ainda.
Olhares perseguidores
No mesmo momento em que cheguei em casa corri pro meu computador, estava muito ansiosa para falar com meus amigos, faziam dias que eu não falava com eles, mas pra variar minha mãe resolveu querer saber como foi o meu dia, contei como estava legal, que conheci algumas pessoas, que a escola era bem grande – não contei que quase me perdi, por que ela poderia usar isso contra mim-, perdi cerca de uns 20 min contando sobre o meu dia, mas enrolei e disse que tinha alguns deveres de casa, fui pro meu quarto troquei de roupa, liguei o som e fui pro computador, logo que entro no MSN, abri as janelas de quem eu queria conversar – minhas amigas é claro, poucas mas únicas-, tava difícil responder tudo separadamente, abri uma conversa em grupo era mais fácil.
Natalia, Marina, Julia, Andressa, Ana Paula, Dayane e Maria Vitória; assim era formada a janela das meninas, e sempre foi assim enquanto eu estava no Brasil.
- Meninas que saudades de vocês!- Eu disse quase chorando, parecia que quanto maior a distancia maior a dor no coração, me corta saber que elas estavam a horas de avião de distancia de mim. Quando contei que a praia era linda, elas deliraram, já estão economizando para poder vir conhecer meu novo lar, espero que a distância nunca mude o tamanho da nossa amizade.
- Sophia!- Ouço minha mãe gritar, estava me chamando pra ir dar umas voltas pela cidade, resolvi ir pra tirar umas fotos para mandar para as meninas, minha mãe disse que iríamos a praia, estava um dia bonito e estava bem quente, sendo assim iria inaugurar meu novo biquíni, minha mãe estava animada, entramos no carro e fomos, levei a câmera e fui tirando fotos durante o caminho – modéstia parte ficaram boas-, estava feliz por minha mãe estar feliz também, quando chegamos a praia vimos que era ainda mais linda do que a noite.
Abri minha cadeira de sol na areia, estendi a canga por cima, tirei meu vestido e me deitei ao sol, estava meio branca e não pego cor muito fácil; minha mãe fez o mesmo, a diferença é que ela pega um lindo bronzeado fácil. Eu e minha mãe queríamos ir tomar um banho de mar, mas não tinha ninguém que pudesse cuidar das nossas coisas, vimos que tinham duas senhoras velhinhas ao nosso lado, perguntamos a elas se elas poderiam cuidar de nossos pertences, elas aceitaram numa boa, fomos para o mar, a água estava bem quente – ainda bem, as poucas vezes que eu fui para a praia a água era gelada-, notei que tinham dois homens seguindo nós, ficamos meio que de alerta no começo, mas depois percebi que eram dois adolescentes, acho que eles estavam pensando que minha mãe tinha uma idade próxima a minha, quando comentei com a minha mãe, ela soltou minha mão e mergulhou, quando voltou disse:
- Filha a água esta ótima querida! – quando eles perceberam que a linda mulher era minha mãe, os dois se olharam com uma cara de espanto, eu estava morrendo de dar risada.
- Mas o que achou mamãe, arrasando corações dos menininhos então?- Falei num tom de ironia profunda.
- Sim meu bem, não é porque eu tenho uma idade mais vantajada, e uma filha, que eu não possa arrasar corações, pena que são crianças praticamente, acho que não estavam vindo aqui por minha causa não acha Sophia? – minha mãe tinha mania de falar indireta pra mim.
- Não acho, não entendo o porquê olhariam para mim mãe?- Nunca me achei a musa da beleza externa, mas não estava afim de estragar meu fim de tarde na praia com as conclusões precipitadas de minha mãe, resolvi ir toma um suco na lanchonete ali no calçadão, mas antes peguei minha canga, pra não passa vergonha, enquanto estava lá sentada, percebi que os garotos de antes estavam por perto, olhei para a areia minha mãe estava lá ao sol novamente, fiquei quieta na minha lendo a revista que estava ali em cima do balcão, notei a presença de duas pessoas – uma cadeira após a minha-, espero que não falem comigo.
- Vão querer o de sempre?- perguntou a garçonete aos garotos, acho que ela já conhecia eles a certo tempo.
- Não, hoje não, queremos dois sucos, o mesmo que o dela! – pude sentir os mesmos olhares de hoje de manha no ônibus quando estava indo para a escola, fingi que não era comigo, como se nem tivesse ouvido nada; terminei meu suco e pedi uma água pra minha mãe, e fui para a praia, fiquei me perguntando o porque todos me olhavam e olhavam minha mãe, olhares perseguidores nos acompanhavam a qualquer lugar que fossemos, acho que eles deviam rir de nossos sotaques, ou algo do tipo, não entendo muito bem isso, espero que eu perca esse sotaque rápido, estou começando a entrar em pânico com as pessoas olhando estranho pra mim; “contenha-se Sophia!” disse mentalmente para mim mesma, não funcionou muito, notei que andava falando muito comigo mesma, será que estou ficando louca? Espero que isso passe, mas o que eu espero mesmo é ir pra casa de uma vez para mandar as fotos para as meninas.
- Mãe a senhora não esta afim de ir pra casa? Estou cansada já. – Disse fazendo uma cara de criança descontente com o presente que ganhou de aniversario, minha mãe também, acho que já estava cansada, aceitou na hora a idéia de ir para casa. Quando estávamos terminando de colocar as coisas no carro, fui até a lanchonete comprar um salgadinho e um refrigerante, tava dando fome já, quando cheguei lá, os garotos ainda estavam lá sentados - estavam me olhando ainda-, comprei o que queria, e quando estava saindo um deles falou:
- Te vejo amanha na escola!- Disse um dos garotos – pele clara, cabelos bem escuros como se fossem pintados de preto, e olhos muito claros-. Olhei para trás num relance, com cara de espanto, o outro garoto disse:
- Oh meu, assim você vai assustar a menina, ela vai achar que nós somos... - ele sibilou alguma palavra muito baixinho que não pude ouvir - E se ela resolver não ir à aula amanha por sua causa?- eles estavam rindo, talvez da minha cara de espanto com que eu os olhei, mas realmente estava cogitando a hipótese de não ir à aula amanha.
Fui para casa pensando no que fazer no dia seguinte, comentei com a minha mãe, ela tirou da lista a idéia de eu não ir à aula, resolvi desencanar do acontecido, fui para o computador passar as fotos da maquina, mandei para as meninas, elas acharam linda a praia, contei os acontecidos do dia, elas riram de mim e eu fiquei com muita vergonha, no dia seguinte elas iriam se reunir na casa de alguém, para fazer uma festinha do pijama e ligar a web pra nos vermos, eu estava com tanta saudade delas, e só fazia quatro dias que não nos víamos, mas a distancia era tanta que pareciam quatro meses.
Deitei na cama naquela noite tentando não entrar em pânico, afinal quem eram aqueles seres que me deram oi na praia? Estava muito curiosa e com medo de certa forma. Resolvi me aquietar e separar a roupa para o dia seguinte; a calça preta que usei hoje, all star - como sempre-, e uma blusa regata do Metálica preta que ganhei das meninas quando estava no aeroporto em Passo Fundo , antes que pegar o avião.
Não consegui dormir muito bem estava nervosa, tentei me acalmar, mas acho que não adiantou, me arrumei, tomei café da manha, e logo chegou o ônibus.
Apresentações formais... E timidez
- Aonde vai tão depressa assim?- Disse o loiro alto – Cuidado! Assim você pode se machucar sabia?- ele deu um sorriso amarelo e olhou para o outro menino.
- Obrigada pela preocupação, mas acho que posso cuidar de meus passos. - Estava nervosa, mas consegui falar tudo calmamente sem parecer grossa, fui simpática até.
- Meu nome é Ben e esse é meu amigo Richard.
- Meu nome é Sophia.
- Muito prazer Sophia. – eu só sorri simpaticamente - Nós vimos você na praia ontem, você estava com sua mãe não é?
- Sim, mas... Mas então eram vocês?- Disse como se não soubesse de nada.
- Sim éramos nós, você não nos reconheceu?
- Desculpa, não reconheci. - Fiz uma cara de quem não sabia de nada - Mas se vocês me derem licença, preciso ir. - Sai sorrateira, e fui procura Jimmy e sua turminha, estava envergonhada quanto falei com eles. Quando cheguei ao meu armário, vi que Jimmy estava lá parado me esperando.
- Bom dia Jimmy, como você está?
- Bem e você?
- Muito bem, obrigada. O que aconteceu com a Jay, ela não estava no ônibus hoje.
- Ela esta meio doente... Problemas particulares. – Quando ele falou essa frase, eu senti meio que o tom de receio de uma pessoa que, quando fala o que não se pode falar pensa com sigo mesma “estou falando demais”.
- Que pena, se você ver ela hoje diga que eu desejei melhoras à ela. – Eu tentei não transparecer metida, creio eu que funcionou, mas vi que Jimmy estava triste hoje, resolvi não incomodar ele o resto do dia afinal estava ali para estuda não é. Jimmy me acompanhou até a sala não falou muito hoje, nem parecia o mesmo menino de ontem.
Quando cheguei a mesa do almoço, notei que todos na mesa estavam meio quietos, não falavam muito, definitivamente algo estava errado, afinal, será que esse momento de silencio era por causa da Jay? O que será que está acontecendo? Sinto que estou sobrando no meio deles, sem saber o motivo do silencio, e dando continuidade a ele, acho que é o certo a fazer, afinal sou novata aqui, não posso me meter nos assuntos deles e muito menos tentar quebrar o gelo no ambiente, seria muito estranho se eu tentasse fazer isso, eles iriam rir de mim. Continuei quieta como estava; mas de repente o gelo foi quebrado, o telefone da Krista tocou, ela se retirou para falar no celular, e todos seguiram seus passos com os olhos, será que eram noticias da Jay? Espero que sim. Bem quando ela voltou estava com um rosto mais alegre, ela queria contar para os outros, então notei que ela estava esperando que eu me retirasse dali; simplesmente me despedi deles levantei e fui para a minha próxima aula – era só dali a quinze minutos, mas devido a situação tive de ir-.
Me senti mal naquele instante, achei que estavam me escondendo algo, mas quem sou eu para querer se meter na vida dos outros achei melhor ficar quieta e não ligar para a situação. Lembrei que tinha esquecido o livro de física no armário, fui correndo buscar, quando estava quase chegando encontrei com Richard na metade do caminho, quase rindo como quem espera que a pessoa caia de cara no chão, ele gritou “Cuidado! Assim você vai cair menina!”, dei um sorriso, e continuei, quando cheguei ao meu armário – ainda tinha dificuldade em me localizar naquela escola, por isso demorei- Vi Jimmy parado em frente ao meu armário com uma cara muito triste, quando cheguei perto vi que ele tinha chorado, estava com os olhos vermelhos e com o rosto inchado.
- Jimmy? O que aconteceu? Você esta péssimo! Posso não ser a melhor pessoa para isso, posso estar parecendo entremetida, mas se você quiser desabafar estou aqui tudo bem?
- Desculpe por aquela situação na hora do almoço, eu não queria que você se sentisse excluída, me desculpe mesmo.
- Tudo bem Jimmy, eu percebi que a minha presença estava atrapalhando, e eu já estava meio atrasada para a aula, tudo bem.
- Atrasada para a aula? Sophia a sua aula é só daqui a 10 minutos. – me lembrou Jimmy, fiquei vermelha nesse momento, e comecei a gaguejar tentando encontrar alguma resposta, não consegui e falei:
- Tudo bem, eu vi que tinha algo errado e que vocês queriam conversar sobre o assunto, isso só concluiu minha hipótese de que vocês queriam privacidade quando o telefone da Krista tocou e ela voltou um tanto mais alegre a mesa, foi ai que eu resolvi deixar vocês conversar sobre o que quer que fosse, não precisa dizer que eu não estava atrapalhando eu sei que eu estava. – disse tudo isso tão rápido que quando eu terminei estava sem ar, puxei o ar tão rápido que ele percebeu, e deu risada - Qual o motivo das risadas?- me senti meio incomodada com isso.
- Não é nada Sophia, eu achei engraçada a maneira de você falar tão rápido dessa forma quase não conseguindo respirar.
- Ta, e... Será que você pode me explicar melhor? – Estava confusa ele falou algo que não tinha nada haver com a situação que se passava-.
- Pra quem mau sabia falar o inglês, conseguiu falar tudo tão rápido sem se enrolar e sem aparecer um sotaque sequer – Quando ele disse isso eu fiquei mais vermelha do que já estava – E tem mais você não estava atrapalhando nada deixe de ser boba menina! – Ele deu risada, suavemente, me deixou meio boba, sem sentidos, estou parecendo uma retardada! Sophia o que está acontecendo com você menina? Pare já com isso. Foi engraçado porque eu não obedeci as minhas próprias ordens ditas pelo meu cociente.
- Sophia, não querendo ser chato, mas... Agora sim você esta atrasada para a aula. – Ele deu uma risadinha sem jeito, pondo a mão no seu pescoço, dei uma risada sem graça, peguei o meu livro e fui para a aula.
Não consegui me concentrar nem um pouquinho na aula, fiquei pensando o porquê Jimmy estava com o rosto daquele jeito, inchado, como se tivesse chorado. Os últimos períodos passaram rápidos para a minha felicidade, fui para o meu armário, peguei minhas coisas e quando cheguei no pátio vi minha mãe lá me esperando, quando estava quase perto de minha mãe; Jimmy me puxou pelo braço, me assustei, de repente uma pessoa lhe puxar assim pelo braço, é estranho, foi um momento estranho, acho que se tivessem filmado, e fossem colocar em câmera lenta, daria uma boa cena para um filme.
Foi o tchau mais estranho que já aconteceu, não sei quem tava mais sem graça na presença um do outro, eu ou ele; ele me deu um papelzinho – pequeno, com jeito de quem rasgou rápido para escrever algo-.
- Abra quando chegar em casa! – Ele disse com um olhar intimidador, ele podia ter feito isso dentro da escola não na frente da minha mãe. Dei tchau de verdade agora, e fui pro carro, ele me olhou com espanto quando viu que a minha mãe estava ali, eu dei uma risada silenciosa, mas minha mãe percebeu o quão sem jeito eu estava.
Abri o bilhete que dizia:
“Espero que você me adicione no seu MSN, gostaria de falar com você com mais calma sem ninguém atrapalhando nossa conversa. Jimmy_1995@yahoo.com”
Naquele momento fiquei me perguntado o que ele queria dizer com aquelas palavras; o pior foi ter adicionado ele, e ele não ter entrado nem um minuto se quer no seu e-mail, isso me frustrou, e muito. Pressenti que deveria me aquietar, aquele bilhete me lembrava o meu passado, o qual eu não queria lembrar; não devo criar falsas expectativas e situações inaceitáveis como eu fiz um dia. Mesmo ele não estando on-line, pensei nele e no bilhete, tentei não comparar as situações passadas, foi onde eu me olhei no espelho e vi minhas marcas, elas não eram visíveis a olho nu, mas só quem tem um enorme microscópio da alma podia ver, no momento era só eu; eu e o meu espelho.
Estava indo dormir, ainda pensando no bilhete e nas lembranças, eu deveria para com isso, imediatamente, era inaceitável o meu comportamento diante dessa situação. Levei um susto, não sabia o que fazer naquele momento, por um instante pensei ter saído de meu próprio corpo e ter corrido para fora, para poder me bisbilhotar pela janela; o toque incessante de meu celular, rompia as barreiras chamadas de paredes, o som era tão inusitado e inexpiável para o momento de concentração. Lutei para conseguir me movimentar, até que a alma levada de uma espiã à janela, toma coragem e corre aos braços do corpo que ali parado sem movimentos previstos, parecia morto.
- Alô?- disse com um tom de voz amedrontado, mas o silêncio da linha do outro lado estava me amedrontando verdadeiramente - Se você não responder vou desligar!- disse em um tom de voz autoritária dessa vez.
- Surpresa! Sophi você não sabe a saudade que estamos de você amiga!- senti um amargo em minha garganta, um aperto em meu coração muito dolorido - Amiga estamos todas juntas na linha ta, e quando eu digo todas, é todas.
- Se vocês estavam com a intenção de matar de susto, não foram bem no plano, foi quase, precisa melhorar a estratégia!
- Se faz de madura, valentona que agüenta qualquer coisa, mas nós estamos notando a sua voz tremula ta bom?- e as risadas rolaram ao outro lado da linha telefônica, e pude ouvir ruídos baixos de algumas fungando e dizendo umas para as outras enxugar as lagrimas.
- Eu sei, estou com muitas saudades de vocês todas, mas quem sabe você deixa as outras falar no telefone comigo Julia, quero ouvir a voz de todas.
- Eu vou colocar no viva voz... Pronto. - ouvi um coro de “eu estou sentindo tanta saudade sua”, e o coro de choros também era possível se perceber.
- Parem de chorar, se não vou chorar também, e assim minha mãe vai ouvir e vai me tomar o celular e não vai me deixar falar com vocês, ela vai querer colocar as fofocas em dia, isso não vale galera!
A noite não foi muito longa no telefone, elas tiverem de desligar rapidinho por causa da tarifa que é muito alta, continuamos no MSN, horas e horas, isso me fez parar de pensar no bilhete, é incrível, mesmo longe; elas sabem quando eu preciso me distrair e me desligar do resto do mundo, mesmo se quer vendo meu olhar preocupado ou triste.
Às vezes eu acho que só não esqueço do meu passado, porque a cada detalhe liga ou leva a uma delas, eu sinto que se eu esquecer os detalhes, frios, dolorosos e desastrosos vou esquecer delas, sei que isso parece bobagem, mas não posso esquecer de lembrar que são com pequenos momentos e detalhes que a vida se constrói, tijolo por tijolo.